quinta-feira, 29 de março de 2012

pontos de criação

o maior escritor de sempre  
ele sabia que não era.
não porque lhe faltassem
palavras. as palavras... 
 
da vinci tinha pedras
e ferramentas miguel
ângelo as cores e o traço
pelas tintas seguiria picasso 

não era deus. nem christian barnard. curto na criação
uma coisa em seus sonhos
ele garantia: tinha mãos. 
e tinha coração.

quarta-feira, 28 de março de 2012

poema - a noite

o pôr do sol era mais que o céu
a linha do horizonte

começava nas pálpebras no ocaso
de uns olhos pequeninos

e assim a noite chegava mais cedo
por detrás do olhar e

havia uma chama acesa
na sala escura dos globos

e recriava duas velas duas
sombras duas meninas na valsa

secreta das doze horas. rezavam
a silenciosa oração da madrugada

sábado, 24 de março de 2012

o outro dia da criação

 

nunca o gesto esteve tão perto
da magma e do nada

nunca o gesto foi tão prenhe
de dor e alegria
da criação
rebentam         elementos
     os
gesto verbo artista deuses

vórtice ou espiral
do fogo à água
    mão invisível
se evapora
  nuvem
             tinta
                      espuma

quinta-feira, 22 de março de 2012

terça-feira, 20 de março de 2012

Dia Mundial da Poesia - na minha mesa há sempre um poema


na minha mesa há sempre um poema.
à minha mesa sentam-se palavras
mastiga-se um pão silabado lento
 
há convivas novos que se anunciam.
todos os dias gosto de receber
a companhia dos meus comensais

celebra-se com um copo reservado
aromas concentrados que adornam
por sobre a toalha bordada as letras

os lábios tocam os copos e as mãos
dedilham as melodias das palavras
em abluções de cor e claridade

de menu em menu de folha em folha
a minha mesa é flor de novidade
diferente e rica em cada livro.

hoje provei sílabas doces

domingo, 18 de março de 2012

o décimo dia da criação


não se arrependeu
nem descansou
luz
não viu
que já havia
trevas do outro lado
do mundo é noite
e noite e dias
uma sequência
de sete porquê

descansar
na imagem
(nossa)
criada
incompleta
obra
de homem

esse mito
eterno

sexta-feira, 16 de março de 2012

"caminhar como quem se afasta de si mesmo"


cortinas invisíveis nos
dividem o teu lado do meu

bloqueiam ruas que não dão
passos aos pés que as pisam

espelhos de um poliedro incolor
atravessados pelo próprio reflexo

recusa autómata das dores
interiores e queixas profundas

o risco maior de partir e voltar
e chegar com os bolsos vazios

e as mãos sombreadas
 
 
“caminhar como quem se afasta de si mesmo”
(António Lobo Antunes – in "Sôbolos rios...")

terça-feira, 13 de março de 2012

poema - esta casa dava um conto



sentados no chão do silêncio
meninos e meninas vigiam
fantasias personagens
que vagueiam pela casa

tinham fugido dos livros

aos olhos do seu leitor
as páginas estavam vazias
nos livros sós as palavras

para trás roupagens

sapatos diálogos neutros.
há que reconstruir caminhos
da porta às janelas ao lume
ao pão da mesa ao leito
acender a lareira dar luz
dar voz e nomes
aos corpos das palavras

iluminar os rostos
dos meninos e meninas
no silêncio dos livros
nas lages do chão

um conto. conta. eu conto

domingo, 4 de março de 2012

poema - conversa com meu primo óscar



 
falavas das histórias da vida e
eu sentia as histórias de dentro.
e todos os demais eram actores 
a começar por nós nas histórias
nas fitas da nossa história

depois de tantas imagens
e tantos enredos e filmes
depois de tantas vidas e filmagens
perdidas entre palavras e memórias.
cenas aparentemente mudas 

aparentemente a preto e branco
isto se acreditarmos que os filmes são
aparências mais ou menos (des)coloridas.
como a vida. ora acabam em bem
ora têm sequências impensáveis.

para os arquivos de que tanto gostas
ficam os nomes e as fotografias
e a duplicação da arte da vida
da imitação à qual pomposamente
(como a dos gatos) chamam sétima

e nós apenas vamos na primeira 
a única que nos resta. sobre a vida
voltaremos a falar meu caro óscar
nem que seja num encontro anual ou
nas conversas comuns de todos os dias

           

 

sexta-feira, 2 de março de 2012

a construção das mãos - as ondas do fado

Terminou a magnífica aventura da construção da escultura "as ondas do fado". Vários meses, mais de 100 horas. E finalmente a alegria de uma peça que aí está: na sua realidade, na sua beleza, fala por si.

Agradecimentos muito especiais: ao "modelo" cuja imagem foi o princípio "destas mãos", o guitarrista e construtor de guitarras Alberto Resende; e a Jerry Cetrulo, dono da American Woodcarving School, Wayne, NJ, laboratório da madeira, onde as mãos criam arte!

E aos muitos amigos que acompanharam a construção destas mãos, aos que me incentivaram e ajudaram a acreditar que tal escultura era possível, mesmo quando era difícil explicar cabalmente o embrionário projecto.




Fizeram-me acreditar que com tempo, olhar e mãos todas as obras são possíveis. Perfeição? Onde tu estás? Lá na frente do caminho que é preciso percorrer... provavelmente na próxima escultura... ou na próxima... ou ...  E se nós não gostarmos de nós e dos nossos sonhos, quem mais irá gostar? Obrigado!