Mostrar mensagens com a etiqueta Exercício de Pintura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Exercício de Pintura. Mostrar todas as mensagens

domingo, 29 de maio de 2011

poema - marcas no tempo


Voltei a mergulhar as mãos nas tintas,
como quem adora brincar com lama,
a mesma sofreguidão, ao modo antigo,
com que se abraça um corpo que se ama,
e festa a festa, carinho a carinho,
vou juntando calor, a cor e a forma,
misturando aqui e ali, devagarinho,
a carícia de luz que lhe faltava,
um ponto, meia sombra, um traço fino…

Depois, gozando da magia e do prazer,
cansado, repouso lado a lado,
contemplo o inacabado à exaustão,
repiro fundo e sopro-lhe alma, a vida,
que lhe vai dar o dom de ser só ela
a gerir a imensidão do seu futuro,
para além das medidas de uma tela,
qual pai que solta e manda um filho,
livre no espaço, à conquista do mundo.

E de mãos prenhes de luz e de sabor
se faz a viagem, o retorno, o andar,
aqui e além deixando sempre a marca:
nos contrastes, nos tons, uma mensagem
nos brancos, nas linhas, na tinta da carta.
É a minha maneira de escrever meu nome
com traços pessoais, letras ternas,
galeria do infinito, além da imagem,
nesta forma muito minha de amar.


 In: "Exercício de Pintura"                                                                 Aguarelas de Ivone Martins 
                                                                                      

sábado, 28 de maio de 2011

livro - Exercício de Pintura

     
" Hoje, depois de ter voltado a pintar, ao fim de tanto tempo (pressinto mais de quinze, tão longe me encontro e revejo nos anos), senti a vontade do regresso aos tempos de criança: voltar a brincar com a lama nas poças densas de água e pó, bater com as botas no charco e ficar com os pés, as mãos e as calças sujas… sentir o prazer de amassar a matéria com as mãos, sentir-lhe a viscosidade, a plástica, renovar o prazer de dar forma, criar marcas na lama do caminho ...
      Voltei a tentar e tenteei voltar a pintar para além dos óleos, essências, corantes e diluentes; manusear agora para além das formas, dos tons, das sombras, da luz, dos riscos e dos espaços, prolongar estes para lá do rectângulo de uma tela, campo definido mas explosivo nas portas que entreabre e nos percursos que deixa antever. Nas essências dos óleos, por entre os riscos, os corantes e as sombras, não serão diluídos os sonhos…
      E senti-me cada vez mais criança. Riscar, espalhar, colorir, ganham agora um sentido novo nas palavras, desenhos, letras, pontos e espaços a abrir... E ver a palavra crescer… "

                       In: "Exercício de Pintura" - João S Martins, 2001