"Gostei muito desta leitura, em silêncio e em voz alta de mim para mim aqui na quietude da minha noite. Trata-se de um poema narrativo, na nossa melhor tradição portuguesa e diaspórica".
Vamberto Freitas
por onde ele anda o silêncio
não adivinhamos não sabemosao certo qual o melhor caminhodas gerações uma após outra e outrafala do saber tão ignoradoda arte das mãos e dos silênciospois o carinho sei onde ele se aninhanem que se esconda no longe mais longecalemos os silêncios do silêncioouçamos as palavras da palavrasentida no coração que bate batee doi também nessa batida ausenteontem nos rimos e agora tentamosa rima que nem sempre bate certousamos o metro nos versos na madeiracom que construímos a mesa que nos falae é poema continuado a fazer a roda...
Segunda feira.
Levanta-se, estica braços e pernas. Despiu-se. Gostava de começar assim o dia. E a semana. Pijama fora. Corpo ao léu. Em frente ao espelho, admirava-o, admirava-se, enquanto a água temperava no chuveiro...
- já estás?
não respondeu, simplesmente não escutara.
As mãos percorriam o corpo, mansamente, sem preocupações de tempo, devagar... suavemente
- demoras muito?
já a toalha actuava como uma segunda massagem, um pouco mais vigorosa, depois do sabão líquido e perfumado, dos óleos...
Rapidamente enfiou meias, calças, camisa, casaco. Sapatos a condizer. Engoliu o café e as vitaminas...
- que belo efeito retemperador...
- ... até logo. Um bom dia!
Hora de virar a página. E sintonizar a estação de rádio favorita.
Conduziu instintivamente. O automóvel reconhecia a rotina. Dois telefonemas para ajustar a voz. O humor. A atitude.
Entrou. Olhou à volta. Os rostos e as feições pareciam diferentes. Estaria ainda sob o efeito do final de semana?! A luz das lâmpadas fluorescentes alterara as cores do rosto. Seria por pouco tempo. Esperava sair e deixar que o sol acompanhasse o ritmo do trabalho.
Foram longas as horas da manhã. Cheias. De entrega.
Uma fruta ligeira e um sumo natural (saudável, lhe disseram, tonificante).
Uma tarde de encontros. Novos rostos. Conversas formais. Outros temas. Reajustar as feições e o sorriso. Os sonhos de agora. Os de logo!
O dia esvai-se. No regresso...
- estarei em casa para jantar em poucos minutos.
Abriu a porta. Um beijo.
- ...olá.
Em movimento inverso, despiu o casaco, camisa, calças, meias. Novamente frente ao espelho. Admirou-se. Tomou um banho retemperador: sabão, cremes, óleos, toalha... pijama. Sentia-se com outra vida.
Chegara a hora de trocar de pele uma vez mais, vestir talvez a mais antiga. Pele de entrega. Quente. Macia.
A mais verdadeira.
a misteriosa invisibilidade do vento
é como um prelúdio de debussy
corre o piano entre os dedos
e nele os olhos divisam um véu ténue
afago em delicados gestos únicos
frases soam translúcidas suspensas
na adivinhada voluptuosidade das cortinas
sopradas nesta brisa interior invisível
pensamento decantado subtil
jogo de encantamento “da capo”
há cascatas condensadas
na pele a água corre em sintonia
deixando vogar um tilintar em crescendo
múltiplo compasso binário prolongado
nos gestos saídos das linhas paralelas
da sinfonia viva que acontece
no despertar de uma nota só
tragam as letras palavrasos versos que ninguém temalivros livres e as cançõesda liberdade o poema ...