quinta-feira, 18 de abril de 2013

longe irão os barcos




longe irão os barcos
se não me levas ao longe
os pássaros assustados
em círculos esperam
e voam por mim.
há rostos submersos
ovais que se fazem eclipses
reveladores das águas.
quando afinal o poema
ainda nem era
sonhado. e definem
margens inexistentes
para depois rasgar
as fronteiras dos mapas
à espera da viagem
resposta possível. não há
espelho nem apolo nem
narciso. só o branco
meu. um olhar. escrito.
teu                                                

                                                     Arte  de  Fernando Silva  

terça-feira, 16 de abril de 2013

o pianista



improviso da memória de uma tela:
o pianista na rádio na sala ou no livro
era um concerto de palavras graves
algumas leves outras em voo
marcando ritmos de vida no chão
de madeira do violoncelo. em diálogo
branco as teclas do piano
as cordas e as sílabas
harmonizam a pontuação
e aplaudem os metais e os sopros.
novas palavras se cruzam
com os dedos e harpejos
da morte que a lira matou.
sim. há flores nos cabelos
nos nomes das bailarinas
há esboços de poemas e passos
semeados no caderno como notas
e vozes. e palmas azuis
retratadas em barro acarinhado.
som. prolongado finale. recolhido olhar
num livro concerto de muitas mãos
e viagens anónimas recriadas

no meu (re)canto eu vos canto
no meu canto vos escuto                                                      © João S Martins – Arte Fernando Silva

segunda-feira, 8 de abril de 2013

piano 2

no piano não há branco
nem preto quando tocas.
os teus dedos e as sombras
dos sons saltam
entre o que julgamos
ver a preto e branco.
aí sim estão as cores
do que me dizes mil vezes
mil tons e rostos mil cores
na sua aparente ausência.
porque nada é definitivo
nas tuas mãos quando tocas.
que diferenças
entre os botões e as teclas
do piano e as outras
do corpo do computador?
sensibilidade? audição? imaginário?
reais as notas ou as anotações
a escrita as falas 
de um e de outro
                                         In: "prelúdio na cidade" - Inédito, João S Martins

quinta-feira, 4 de abril de 2013

adoração



talvez só um coração de mãe entenda 
plenamente esta adoração por um filho
neste gesto da serenidade contemplativa

terça-feira, 2 de abril de 2013

piano 1



a misteriosa invisibilidade do vento
é como um prelúdio de debussy
o piano corre entre os dedos
e nele os olhos divisam
o véu ténue que afagam
em delicados gestos únicos

soam frases translúcidas
suspensas adivinhadas
na voluptuosidade das cortinas.
mistério esta brisa interior
invisível pensamento decantado
subtil jogo de encantamento

há cascatas de sentimentos
condensados na pele.
a água corre em sintonia
deixando vogar o tilitar
dos sons em crescendo: 
múltiplo compasso binário prolongado 
                     In: "prelúdio na cidade" - Inédito, João S Martins