sexta-feira, 13 de julho de 2012

quando menino eu lia... 2


quando menino falava e eram já                       
                    algumas as palavras as falas que sabia             
ainda antes de saber falar antes ainda
das sílabas usava palavras de andar
palavras agarradas às saias da mãe
às cadeiras às pernas das mesas
ao colo dos tios palavras que dizia
mesmo sem falar. davam-me palavras
que guardava nos bolsos de falar
davam-me doces que eu comia
palavras rebuçados que saboreava
ou guardava e poupava
para saborear e usar mais tarde.
se tinha demais também oferecia
e trocava para aumentar o meu tesouro
de chocolates palavras doces.
e a minha colecção de iguarias
cresceu e fui juntando e juntando
muitas palavras guardadas
saíam dos bolsos como brinquedos
para os meus jogos de menino
com os amigos e vizinhos da minha rua
onde havia muitas palavras soltas
que eram de todos. e como os cromos
dos jogadores de futebol e dos ciclistas
trocávamos para aumentar a nossa
caderneta colecção de cromos e palavras
e havia palavras para todos
palavras de todos para todos
palavras com um amanhã

                   In: "quando menino eu lia...", João S Martins, inédito

terça-feira, 10 de julho de 2012

quando menino eu lia ...


menino menino lia...
e visitava o coração esse enorme
vão de escada biblioteca onde
cabiam todos os livros sem idade
ou com idade de meninos ou graúdos
todos os livros  de amor
e outras escritas da alma
espalhando folhas soltas
pagelas de olhares de menino
o mesmo que em menino lia 
palavras. palavra de menino



In: "quando menino eu lia..." - João S Martins, inédito     Arte de Fernando Silva                                               

terça-feira, 3 de julho de 2012

vice-versa


chegará sem dúvida o momento
inevitável, em que eu ou tu estaremos
na sala, sós, olhando literalmente
para a janela uma das muitas janelas
de ontem, ou do amanhã entreaberto.

e eu lerei para ti, ou alguém virá ler
para mim, a tua carta ou um qualquer jornal.
a voz será mais importante e suave
que as notícias ou os resultados
dos políticos ou dos concursos desportivos.

se for dia dos teus anos cantarei,
ou se for o meu aniversário dirão:
parabéns (pela longa vida?) por tudo
quanto a idade permitiu fazer
ao longo dos dias de inverno mais curtos.

                                           (...)  depois…
vamos cortar só para nós dois o bolo e
saborear. tu lês e eu escuto e, num sorriso,
dirás para mim: parabéns e eu direi
muitos anos de vida. adormeceremos então

ou vice-versa…

sábado, 30 de junho de 2012

fado na noite do fado - o video

triste a noite triste vem
nos fados que a noite abraçam
na rua que tanto tem
tristezas que por lá passam

nas vozes que a noite esconde.
por muito escuro que faça
uma luzinha presença
brilha por trás da vidraça

vendem-se imagens e luzes
nas janelas da ilusão
capa que encobre a tristeza
das noites de solidão

nas estrelas que viajam
há uma esperança e uma prece
sonhos das horas que passam 
enquanto a noite adormece
http://youtu.be/xP5ewfsNQTA 
 "fado da noite do fado"
 A gravação do primeiro tema do projecto no "youtube"
"FERRY STREET - RUA DA PALAVRA" 
(vídeo de João Pedro Martins)

sábado, 23 de junho de 2012

mãe - "o último leito"



num pedaço de madeira, quaisquer que sejam as medidas, nascem imagens e sentimentos, como num coração, qualquer que seja o seu tamanho. 

enorme é o amor, qualquer que seja a idade de um filho, e há sempre um colo a embalar, um berço, um leito, quantas vezes o último, porque o primeiro em calor, mesmo na despedida.

"la pieta" não tem que ser apenas um momento solene, mas um abraço apertado e sentido, porque humano. há um corpo que repousa na dignidade da entrega.


terça-feira, 19 de junho de 2012

o inefável dia de um gesto


levanta-se
como qualquer mortal sentimento
e estica-se em frente
alonga-se e prolonga-se
no subtil movimento
de quem pretende acordar

muito ou pouco trabalhado?
horas a fio centradas
em instantes diáfanos.
os dedos tentativamente
se desenham em incríveis
piruetas de um bailado melífluo
circundando partículas de ar
que se sentem acariciadas

um gesto alimenta-se de pouco
ou do muito que o corpo
ou o sentido lhe transmitem

se é um gesto de pé ou de perna
sorrateiramente se insinua
e se cruz e descruza
entrelinhas, entre
as linhas
com que as sombras se cozem
com a parede ou com os cubos
da calçada

gesto de corpo
poema da alma em tarde lânguida
entre penumbras e
laranjas acetinados do sol
que sorrateiramente mergulha
enquanto o gesto subtil
se adentra na noite
que se adensa

à noite, o gesto vem só por si, com luz
ou sem ela, com lua
ou sem as estrelas do firmamento
que delicadamente colhera
para fazer um ramalhete
(daí um nobre gesto)
insinua-se pelas dobras
camaleão do escuro

só por si, só
por si se esvai e se evola...
fazendo juz ao seu nome,
num gesto de despedida
simplesmente... gesto

quinta-feira, 14 de junho de 2012

mãe

 








as mães não se medem em centímetros ou em polegadas, mas pelo calor que emanam ... mais sentido fará serem medidas com um termómetro, caso exista um termómetro para o amor, quando olham para um filho...
e como a madeira é quente e aquece

Depois de uma série de trabalhos sobre mãos, nas quais continuo a acreditar, uma nova experiência: criar na madeira a imagem da mãe que tem no seu colo o seu filho, o carinho das mãos espalhado pelos braços que seguram, que apertam e unem, carinho de corpo inteiro. Estas são imagens do trabalho em progresso.


segunda-feira, 11 de junho de 2012

identidade


a pele é um mapa ao sol
directo em agosto de face lavada
a primavera veste um rosto vertical
recantos da boca acentuados

o outono procura nitidez
por entre as sombras indefinidas
na vegetação persistente
do inverno anunciado.

a visão no espelho ou no olhar
divide-se entre o rosto e o resto
algumas cicatrizes invisíveis ou
olhares de ocasional espanto.

assim se apresentam e distribuem
os espaços e as formas da barba
o desenho oval dos óculos
reforça as curvas dos sonhos.

quando falamos em identidade
fidelidade coerência e idade
mudarão talvez os traços jovens
as palavras e o rosto são os mesmos.


sexta-feira, 8 de junho de 2012

10 de junho - dia de comunidades


É O Dia!  dia de país, comunidade e povo, dia nosso, com direito a notícias e televião da rua mais portuguesa, de tão universal no encontro das culturas. E são tantas, e tanto o linguarejar que, de diferente, a todos une.

Chegámos num dia de comunidade, de comunidades, em junho ou noutro mês qualquer, pouco importa, era dia de escutar cantar a voz mátria, de bandeira na janela, de ler em português os anúncios de bacalhau e do pão, de continuar a sorrir ao bom dia! ao obrigado!
E de qualquer rua Portugal, fazer porto de partida para mais voltas ao mundo, cantando o fado antigo sempre novo, cruzar terras, mar e nuvens, até onde se estende a alma de povo.


Arte - Fernando Silva

sexta-feira, 1 de junho de 2012

o fado não é só meu

não há poema
ou fado que não reconte
as vidas que os atravessam
e sigam o seu próprio passo

e o fado não é só meu

não sou fadista
nem dono da verdade
mesmo cantada solto
versos e paixões

mas o fado não é só teu

vive de quantos lá estão
tem tantas casas e ruas
é de ninguém e de todos
os que o habitam

.. assim é a ferry street
                                                                                               O Fado - Arte de António Rendeiro